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Friday, March 28, 2014

Tutorial ilustrado passo-a-passo: como colocar a camisinha

Vivia eu minha vidinha medíocre, onde nada de muito significativo, digno de ser aqui compartilhado, ocorria.

Quando, assim de repente, numa tarde nublada e fresca, interrompendo uma sequência de dias insuportavelmente quentes, a ponto de extenuar as glândula sudoríparas dos meus bagos, pois, como aqui já relatado, costumo suar muito no saco em dias quentes, um acontecimento memorável, na solidão cerrada em que sou obrigado a viver, se materializou.

Fui dar cumprimento a um mandado de prisão pelo não pagamento de pensão alimentícia, de um sujeito que devia para seus filhos infantes, nada mais nada menos, que oito mil reais. Sim, oito conto.

Dirigi-me até sua residência acompanhado de uma viatura da polícia militar. A casa do sujeito, obviamente não possuía campainha. Bati, então, diversas vezes minha esquálidas mãozinhas para chamá-lo. O sujeito apareceu. Dei-lhe ciência da ordem judicial, e de que ele seria conduzido para o presídio, onde sujeitos de origem afro-kid-bengalesca fariam farra em seu "fiofó" até que ele quitasse seu débito.

Ainda meio incrédulo, o sujeito indagou-me se haveria alguma alternativa, algo que ele pudesse fazer para evitar que seu traseiro fosse vilipendiado impiedosamente nos porões do medieval sistema penitenciário catarinense. Ao que respondi, na condição de "Longa manus" da Justiça: "não".

O sujeito respirou fundo, e se entregou aos policiais, não sem antes mandar um recado para sua ex-esposa "essa filha-da-puta quer foder comigo".

Moral da estória: use-camisinha, amiguinho.

Tuesday, November 12, 2013

O caso da "pepeca de ouro"

Quebro o silêncio que vem assombrando este blog, pois achei digo de compartilhamento as palavras mais a frente transcritas, que ouvi de uma das vidas que arruinei na última semana.

Em um dia ordinário, sob os flamejantes raios solares, fui citar um sujeito numa ação de divórcio; além de lhe dar ciência quanto a ação impetrada por sua ex-esposa, a ordem judicial também determinava sua intimação para que, a partir daquele instante, depositasse mensalmente, até o fim dos tempos, uma polposa pensão.

Meio relutante e incrédulo, o cara faz o seguinte comentário antes de, a muito contragosto, lançar sua nota de ciente na minha via do mandado: "pô, essa mulher quer carro, apartamento e agora pensão; ela deve tá achando que tem uma pepeca de ouro".

Anui silenciosamente com um aceno de cabeça. Franzi o cenho e vazei dali, em busca da próxima vítima do judiciário.

Tuesday, December 11, 2012

O monólogo do gaúcho

Comprovando minha teoria de que gaúchos falam demais, normalmente compartilhando informações que não me interessam, eis o que me aconteceu ontem:

O mandado era de intimação. A guria, uma gaúcha, tinha que apresentar uma documentação em juízo, no prazo x, sob pena de ser processada criminalmente.

Fui no endereço, bati palmas, pois a casa não tinha campainha, veio a moça e eu regurgitei meu discursinho. Em qualquer outra residência, a pessoa teria assinado a parada e eu teria vazado, mas não na casa de uma gaúcha.

Ela passou então a contar toda sua jornada de vida até aquele momento, enquanto eu, silentemente, assentia com a cabeça.

Passadas algumas horas, a história parecia chegar ao fim, e eu sentia que a conclusão estava próxima; mas não, o monólogo do gaúcho nunca tem fim, ela ainda tinha uma informação muito relevante para compartilhar com um oficial de justiça que ela acabará de conhecer:

"(...) meu dia tá terrível, acabei de descobrir que meu namorado tá me traindo, e agora isso (...)"

Lá no Rio Grande não é assim

Se tem um povo que gosta de falar, é o gaúcho. Eu, de outra banda, sou tão inapto ao convívio social, que evito a qualquer custo o contato com outras pessoas.

Lá onde eu trabalho, em que pese solo catarinense, 99% da população é composta de sujeitos oriundos do Rio Grande.

Assim, qualquer intimaçãozinha, por mais simples que seja, e que em outras situações demoraria 60 segundos para ser cumprida, na casa de um gaúcho pode se arrastar por horas sem fim; e, muitas vezes, a "conversa" acaba tomando os rumos mais inimagináveis.

Dia desses, lá fora eu citar um gaudério. Normalmente, eu chego na casa da pessoa, toco a campainha, vomito meu discursinho padrão, a pessoa fica indignadazinha, mas acaba assinando a parada e eu me vou. Coisa que, como dito acima, dura só alguns minutos. Mas não na casa de um gaúcho. Primeiro o cara vai te contar toda a história da vida dele até chegar no dia em que os fatos ocorreram, como forma de justificar suas ações. Em seguida, passará a desqualificar o autor do processo, com argumentos do tipo "lá no Rio Grande não é assim, nesta cidade só tem picareta, blablabla". Como sou um cagalhão, normalmente fico ouvido passivamente a toda essa chorumela.

Então, após me identificar e ler os termos do mandado, lá se foi o gaúcho contar toda sua trajetória de vida e maldizer o autor. Contudo, não satisfeito, passou, em seguida, a desqualificar o advogado do autor:

"(...) esse cara aí, gasta todo o dinheiro dele com puta, nada contra, por que eu também gosto duma putinha de vez em quando, até por que, quando o cara chega numa certa idade, só indo na zona mesmo pra comer um negócio melhorzinho, mas esse sujeito ai só pega aquelas puta barriguda, daquelas bem acabadas mesmo (...)"

Enquanto isso, eu pensava para comigo mesmo "Oh, deus, mate-me agora..."

Wednesday, September 12, 2012

Bolas de Aço

O sol inclemente irradiava seus nocivos raios sobre meu fatigado e esquálido corpo. Uma pequenina, porém gélida, gota de suor lentamente escorria por minha bola direita. Aquela fugaz sensação de refrescância em meu saco escrotal trazia algum alento na íngreme subida. Porém, a cada passo dado, mais eu tinha certeza de que não chegaria consciente ao topo daquele morro. A qualquer momento um mal súbito acometeria meus sentidos, eu desfaleceria ali mesmo, meu corpo rolaria desgovernado morro abaixo. Em seguida, meus bolsos seriam saqueados por favelados esfomeados.

Felizmente, consegui chegar ao endereço indicado e, com minhas últimas forças, bati palmas, e esperei algum sinal. Tinha que ter alguém em casa. Eu não queria ter que voltar naquela merda de lugar.

Uma mocinha apareceu na janela. Era a pessoa procurada. Ainda meio esbaforido, iniciei meu monólogo padrão monotonicamente.

Em resumo, a guria tava sendo intimada para ir numa audiência.

"Ah, mas do que que é isso?", a mocinha perguntou.

"Olha, minha senhora, eu sou um reles carteiro do fórum, um mero entregador de intimações, um portador de péssimas notícias; o processo eu não conheço. Contudo, pelo título da ação, presumo que você tenha feito um boletim de ocorrência por agressão contra fulana de tal, sendo que referido procedimento foi encaminhado ao fórum, onde é realizada uma audiência de conciliação", respondi.

"Ah, ela me bateu mesmo, mas eu também dei umas porradas nela. É que ela chutou meu cachorro, sabe", ela comentou com a maior naturalidade.

"Deus, toda a necrosada máquina da justiça foi acionada por que alguém chutou o cachorro do vizinho", pensei para comigo, "que merda de judiciário", foi o que eu deveria ter falado, mas apenas soltei um mecânico "assina a minha via, por favor. Obrigado e boa sorte."

Tuesday, September 11, 2012

Contos da Favela do Siri

Numa tarde dessas, moradores da favela do siri que olhassem por suas janelas, veriam um rapaz branco, claudicante e desmilinguido passando em frente de suas casas.

No que eu dobrei a primeira esquina, vi um casalzinho vindo. Um maloqueiro e uma guria loira de uns 16 anos. "Que lastima", pensei, "qual a doentia atração que esses vermes exercem sobre belas mocinhas adolescentes?". Perturbou-me também o fato de que o sujeito vinha tentando enrolar alguma coisa nas mãos enquanto andava, porém sem sucesso. Ele teve que parar e se encostar num poste para concluir sua tarefa, bem no momento em que passei por eles. O sujeito tava enrolado um cigarrinho do capeta, bem no meio da rua, em plena luz do dia.

"Que merda de lugar", pensei. Não é a toa que a mãe natureza, lentamente, dia após dia, vem encobrindo aquela localidade com suas areias.

Meu objetivo, naquele lugar desprezível, era justamente intimar um sujeito que está sendo processado criminalmente por porte de drogas.

Entrei na ruela indicada no mandado e comecei a procurar pelo respectivo número. Na favela do siri, a numeração das ruas não faz o menor sentido, e achar uma casa específica lá é sempre um martírio. Esbaforido, cheguei ao final do beco, sem ter localizado a residência apontada, quando vi a bizarra cena que me inspirou a escrever estas medíocres linhas.

Um sujeito, tetraplégico, em sua cadeira de rodas, numa rodinha de maconheiros. Cada um dava uma pitada na porcaria e passava pro próximo maloqueiro. Quando chegava a vez do rapaz entrevado, um solicito amigo gentilmente colocava o baseado em sua boca e esperava ele tragar, passando então pro próximo.

Não soube ao certo o que pensar daquilo. Talvez eu devesse ter jogado uma granada no meio daqueles caras, mas o preço da granada anda caro, então achei melhor esperar por outra oportunidade, quando houvessem mais maconheiros reunidos.

Fui pra casa e tomei várias cervejas, e, antes de bater violentamente e sem qualquer motivo na minha mulher, pensei: "como a maconha é uma substância terrível que vem arruinando as famílias brasileiras".

Monday, September 3, 2012

Eu tô bem

Eu tinha acabado de chegar em casa após uma extenuante tarde de trabalho. Ansiava por me sentar no sofá e jogar videogame para esquecer da vida medíocre, de cara branco de classe média, que levo.

Mal eu iniciará de desamarrar o calçado. O telefone toca; era do fórum; eu estava de plantão.

Era um alvará de soltura e mandado de citação. O mesmo sujeito deveria ser libertado do cárcere e citado em uma ação penal. O cara tava recolhido no Hospital de Custódia, que é o "presídio dos malucos".

Amarrei novamente o tênis; entrei no carro; dirige-me até o ergástulo; apresentei-me ao carcereiro; levaram-me até o calabouço.

O responsável pediu pra mim aguardar numa salinha, era como um parlatório, onde advogados tem entrevista reservada com seus clientes enjaulados.

A porta se abriu, entrou um sujeito de uniforme laranja acompanhando de um agente prisional. Logo já vi que o cara tava chapadasso, totalmente dopado.

Apresentei-me e iniciei meu longo monologo a fim de que todas as formalidades legais fossem preenchidas. Ocorre que, a cada palavra que eu dizia, mais eu constatava que o cara estava em outro planeta, totalmente alheio ao que acontecia ao seu redor.

Interrompi minha fala e olhei naqueles olhos vazios, procurando alguma resposta, algum sinal de que o cara estava me entendendo.

Num lampejo de luz, percebendo que eu esperava alguma reação, o cara soltou um débil "eu tô bem, eu tô bem".

"Deus", pensei, "que merda de emprego". Continuar era inócuo. "Assina essa parada aqui", falei, e lhe entreguei a contrafé.

Voltei para casa. Joguei videogame mais avidamente do que nunca.

Friday, March 16, 2012

Direitos Humanos

Desde que recebi parcela do poder estatal, para dele usufruir da melhor forma que me convir, uma das situações mais insólitas em que já me vi foi a seguinte.

De posse de um mandado de internação compulsória, cujo objeto era levar um sujeito na marra para uma clínica de reabilitação, a fim de que ele fosse tratado de seu vício em cocaína e barbitúricos, dirige-me até o apartamento do cidadão. Sob minha batuta, 4 policiais militares. Apresentei-me e o drogadito franqueou suas portas. Li os termos do mandado. Perguntei se ele iria me acompanhar voluntariamente ou se seria necessário conduzi-lo a força. O maluco não se opôs, apenas pediu para tomar um banho. Acontecimentos.

Agora já estamos do lado de fora do prédio, em frente à viatura da polícia. Contudo, com 4 policiais e eu, já havia 5 negos dentro da caminhonete. Logo, o drogadito teria que ir na "caixa", na parte de trás da viatura, onde são transportados presos e maloqueiros.

O sujeito, que até então vinha cooperando maravilhosamente, ao ser informado que teria que viajar dentro da "caixa", abriu o maior berreiro, com um pomposo discuso sobre a dignidade da pessoa humana. Vale ressaltar que o cara não era um favelado ou marginal qualquer, mas sim um ocupante de prestigioso cargo na união federal.

Me vi diante de um dilema, ou bato o pé e peço pros policias algemarem o cara e colocá-lo à força na "caixa", correndo, assim, o risco do cheirador meter na minha espinha posteriormente; ou deixo de cumprir a parada, sob o argumento de que não teriam sido fornecidos meios condignos de transportá-lo. Em qualquer umas das hipóteses, eu estaria fudido.

Matutei por alguns instantes. "Como vim parar aqui? Que merda de emprego", pensei. Enquanto isso, o cara ameaçava que eu seria responsabilizado acaso desse continuidade aquele ato, e o policiais esperavam uma decisão. Foi ai que me veio uma luz.

- Eu vou na "caixa" então!

Sentenciei triunfante. Claro, dai o cara iria no banco de trás e não tinha grilo. É claro que eu teria que passar a próxima hora dentro de um pequenino espaço, por onde diversos marginais sebosos já teriam passado, mas ai eu conseguiria cumprir a parada numa nice! E o cara também não podia ficar mais choramingando.

Após cerca de uma hora de viajem, chegamos ao nosso destino. Deixamos o drogadito na clínica e regressamos.

Talvez eu não tenha relatado o suficientemente bem, para que o inexistente leitor tenha compreendido perfeitamente a dimensão dos acontecimentos que se assucederam naquela fatídica noite de sexta-feira, mas aquele foi um dos episódios mais bizarros da minha pobre vida. Palavra.

Au au au

Sempre que algum mandado vem acompanhado de peças processuais, costumo dar um bizu, pra ver se não acho alguma nova pérola.

Eis que na data de hoje, recebi um mandado de citação. Segundo consta na denúncia do Ministério Público, após receber voz de prisão por desacato a um Policial Militar, o vagabundo "chamou os militares de 'cachorros do governo', imitando latidos durante o percurso feito pela viatura".

Deve ter sido uma cena lamentável. Além de chamar os PMs de cães, o sujeito ainda imitou o ladrar canino para ilustrar suas ofensas.

Wednesday, March 14, 2012

É da net?

Pergunta que mais ouço quando chego na casa de alguém: "tu é da NET/SKY?"

As vezes não me sinto tão culpado por ganhar a vida arruinando a vida das pessoas.

Tuesday, March 13, 2012

Nada > Oficial de Justiça

Era uma tarde quente de verão. Após tentar, sem sucesso, achar um vagabundo no final de uma rua só acessível a pé, eu vinha voltando, esbaforido. Eu sentia o suor delicadamente escorrendo pelo meu saco. Minha mente estava em casa, passando de nível no MW3, mas meu estupor não durou muito, pois logo sou interrompido pela seguinte interrogação:

- Se tá fazendo algum tipo de levantamento, moço?

A pergunta vinha de uma velha que fechava o portão de sua casa e por quem eu acabará de passar despercebido. Muito contrariado, eis que detesto outras pessoas, o seguinte dialogo se desenrolou:

- Não. Trabalho no fórum. Tava procurando um sujeito nessa rua.

- Ah, tu trabalha no fórum é? Eu tô indo pra lá agora. É que tem um inquilino meu que não quer me pagar. Que que tu faz no fórum?

- Sou oficial de justiça.

- Tu tem um cartãozinho com o teu nome e telefone?

- Não, por quê?

- Ah, é que eu queria ter o telefone de um oficial de justiça, acaso eu precise de um.

"Não, não tenho. Lamento. Boa sorte" é o que eu respondi, mas deveria ter ressaltado que não existe uma única situação adversa na vida em que a presença de um oficial de justiça faria qualquer diferença. Não somos da polícia, não detemos parcela do poder estatal, não temos porte de arma e ninguém dá a mínima pra gente. De outra banda, existe a possibilidade de que a velha senhora estivesse dando em cima de mim e queria meu telefone para que mantivéssemos uma relação intima posteriormente. Não seria de se duvidar.

CF: art. 5º, LVII

Hoje, citei um sujeito que foi denunciado pelo Ministério Público por ter batido uma punheta no ônibus.

Sunday, March 4, 2012

Simon "Sick Boy" Williamson

Como já comentado aqui esses tempos, ser pego com um baseado, ou pequena quantidade de qualquer droga ilícita, desde que para consumo próprio, não é crime. No entanto, o maconheiro não escapará do moedor de carnê assim tão fácil.

Algumas semanas depois, o pobre diabo receberá um oficial de justiça na sua porta lhe intimando para comparecer em uma audiência de transação penal.

Então, há alguns dias, fui cumprir um, entre os diversos mandados dessa natureza que recebo todas os dias.

Cheguei no endereço indicado. Pra variar, não havia campainha. Bati palmas. Nenhuma resposta. Voltei a bater palmas. Nada. Como não havia cadeado no portão, me certifiquei de que não havia nenhum cachorro na propriedade. Entrei no terreno e me dirigi até a porta. Bati. Aparece uma bela mocinha. Lamentavelmente, era a intimanda.

Iniciei, tal qual um robozinho, meu discursinho padrão. Talvez pelos efeitos nocivos que a maconha causa no cérebro, a mocinha não entendeu picas.

- Tu precisa ir nessa audiência, por conta das acusações que o Ministério Público fez contra ti.
- Mas que acusação, moço? Eu nunca fiz nada de errado.
- Bem, consta aqui que tu foi pega pela polícia com um baseado de maconha.
- Ah, mas eu nem tava fumando, eu só tava junto.

"Só lamento. Quem manda ficar andando com maconheiro, porra", era o que eu deveria ter dito, mas como sou um cagalhão, só soltei um "Bem, então procure um advogado."

Saturday, March 3, 2012

Contravenções penais

Há uns dias, numa típica tarde de calor senegalês na ilha da agonia, após subir a pé uma pequenina, porém ingreme, ruela sob o sol inclemente, localizei a residência indicada no mandado. Não havia campainha. Bati algumas palmas. Nada. Tornei a bater palmas, desta vez com mais enfase. Uma velinha aparece no portão. Pergunto seu nome.

Como era a pessoa que deveria ser citada, mesmo esbaforido pelo hercúleo esforço despendido para chegar ali, iniciei, tal qual um autômato, meu monólogo padrão. Contudo, antes de terminado meu discursinho, sou interrompido pela minha interlocutora:

- Tu já usou aparelho?

Atônito, não só pela interrupção, mas com o total descabimento daquela pergunta, respondo secamente que "sim". No entanto, curioso, emendei minha resposta com um "por quê?"

- Ah, é que teus dentes são perfeitos.

Que tipo de comentário é esse quando se é confrontado com a notícia de que você está sendo processado criminalmente, provavelmente uma das piores notícias que se pode receber em vida? Desejava a velha senhora se safar me galanteando? Tantas vezes já arruinei a vida de belas e jovens mulheres e nenhuma delas se ofereceu para mim, como se esperaria em tramas de filmes pornográficos, que muito diferem da vida real.

Enfim, apesar de termos iniciado nosso encontro com elogios, após tomar ciência da acusação que sob si pendia, a velha senhora, desagradada, passou a excomungar o ordenamento legal e o judiciário. Disse para ela que não adiantava ficar brava comigo, pois eu era apenas o mensageiro. Pedi para ela assinar a minha via do mandado, a fim de que eu pudesse dar o fora dali. Ela se recusou e, ignorando o fato de que eu sou apenas um merda, que nada decide em questões judiciais como aquela, continuou a criticar a aplicação das leis no Brasil.

"Vai tomar no teu cu então, sua velha louca do caralho. Guarde suas chorumelas para juízes, promotores, deputados federais, e outro deuses", era o que tive vontade de dizer, mas, como sou um cagalhão, só me despedi com um "Ok, tá bom então. Passar bem."

Thursday, December 8, 2011

Doesnt matter, had sex

Contrariando as estatísticas e a descrença popular, parece que este malfadado blog possui um(a) leitor(a)!

Após relatar aqui aquela tentativa de cumprimento de mandado na casa de um tiozinho - tentativa esta que terminou numa sala escura, com fotos de mulheres seminuas sendo exibidas num velho computador, enquanto eu temia ser estuprado - o suposto leitor fez, nos comentários, a seguintes indagação:

Tem que haver continuação, meu caro. Como eram os atributos físicos da destinatária do mandado?

Acredito que a curiosidade do leitor tenha sido avivada pelo fato de eu ter mencionado que, segundo informações de seu senhorio e de vizinhos, a moça ganharia a vida de forma não ortodoxa, dando afeto e carinho para homens solitários em troca de dinheiro.

Pois bem, dando continuidade ao relato, naquele mesmo dia retornei ao endereço indicado e consegui encontrar a moça. Pra minha decepção, a mulher era um bago. Não que eu seja bonito. Mas ela era bem acabadinha, apesar de não ter muito mais de trinta anos. Ela tinha uma aparência velha e cansada, nem um pouco atraente. Fora que o interior da casa dela era uma completa nojeira, com roupa suja jogada por todos os cantos e uma puta catinga de asa queimada.

De qualquer sorte, perante aquela pobre alma, estufei o peito e iniciei meu monólogo padrão de cunho jurídico-legal-filosófico-fuleiro, a fim de efetivar sua citação, tendo a moça exarado sua assinatura sem titubear.

Secretamente, enquanto proferia os termos do mandado, fiquei na esperança dela oferecer seus serviços de forma gratuita, em troca de uns dias a mais de prazo ou qualquer coisa que o valha, porém a trama da vida é muito diferente dos "enredos" dos filmes pornográficos. Infelizmente.

Monday, November 28, 2011

Aderbal Ramos da Silva

Semana passada, fui tentar cumprir um mandado na casa de um tiozinho. Era um mandado de citação dirigido à inquilina do cara. Ela não estava em casa. Então, dei uma sondada com o tiozinho pra ver qual era o melhor horário pra encontrar a citanda em casa.

- É melhor tu voltar depois das 17 horas - o tiozinho me aconselhou - é quando ela chega em casa do trabalho.

- Ah, então tá. Obrigado, mais tarde dou uma passada aqu...

Mas antes que eu pudesse concluir minha despedida:

- Oh, tem como tu dar uma olhada aqui no computador no meu processo?

"Velho folgado", pensei, mas como sou um cagalhão, não sei dizer "não", e quando vejo, já estou num pequeno escritório, nos fundos da casa do velho, esperando o computador ligar. No que a parada é carregada, me salta aos olhos que o cara tem dezenas de fotos de mulheres em trajes sumários salvas na área de trabalho.

Ele tenta, em vão, conectar a internet 3G pra me mostrar os dados do processo dele. Agradeço a buddha que ele não tenha conseguido e já vou tentando iniciar uma nova despedida.

- Mas então tá, mais tarde eu vou ter que passar ai mesmo, dai já dou uma olhada no teu proce...

- Tu torce pro figueira ou pro avaí? - o velho filho-da-mãe me interrompe mais uma vez.

Digo que não torço pra nenhum dos dois. Diante da perplexidade do velho, explico que não sou de Fpolis.

Indiferente, o velho clica em uma das fotos salvas em seu desktop, e uma foto de uma moça com um pequenino shorts azul e uma micro camiseta do avaí enche a tela.

- Essa dai é a musa da torcida do avaí - o velho diz, com um sorriso sinistro no rosto.

- Ah, legal. Bonita - respondo, desconcertado, sem saber ao certo como reagir.

O velho então passa a exaltar a formosura e os dotes físicos da moça, enquanto uma vontade desesperadora de sumir dali começa a tomar conta de mim.

Digo que preciso ir. O velho me acompanha até o portão se queixando da morosidade do judiciário e de sua inquilina.

- É que ela é puta, sabe - o velho me explica, ao que respondo com um aceno de cabeça.

Finalmente nos despedimos. Embarco no carro. Parto pro próximo mandado.

Wednesday, October 12, 2011

Testify

Esses dias, fui cumprir um mandado na casa duma velhinha. Me identifiquei e disse precisava conversar com a neta dela, que era a destinatária do mandado.

- Tá, mas como eu vou saber que tu é oficial de justiça mesmo?

- A senhora não tá vendo meu crachá, com a minha identificação funcional?

- Ah, mas qualquer um pode botar um crachá no pescoço e sair por ai dizendo que é oficial de justiça...

- Minha, senhora, eu posso lhe assegurar que eu não estou mentindo. Inclusive, a senhora pode ligar lá no fórum e confirmar.

- Tu jura mesmo que tu é oficial de justiça?

- Sim, minha senhora, eu juro.

- Jura perante deus?!

- Sim, juro.

- Ah, então tá bom, vou lá chamar ela.

Sunday, October 2, 2011

Como sair do cartório e ir trabalhar em gabinete

Tenho que compartilhar mais uma pergunta escrota formulada naquele curso que fiz semana passada.

Então o instrutor deve ter ficado uma meia hora explicando a diferença entre "termo" e "auto", que o primeiro é confeccionado pelo escrivão, e o segundo, pelo oficial de justiça. Simples assim. Qualquer pessoa minimamente inteligente teria captado a mensagem.

Mas não os ratos de gabinete, aquele pessoalzinho que fica catando cabelo em ovo, pelo simples prazer de tornar tudo mais complicado.

Encerrada a explanação, o instrutor indaga: "alguma dúvida quanto à diferença entre termo e auto?"

Até eu, que não sou dos mais inteligentes, compreendi perfeitamente a distinção, e acreditava que não havia margem alguma para dúvidas ou discussões

Nisso, uma ex-assessora de juiz levanta seu magrelo bracinho com o dedo indicador em riste: "Ai, professor, mas termo e auto são a mesma coisa?"

Educadamente, o instrutor respondeu que "não", e passou a repetir tudo aquilo que ele já havia dito até aquele momento, sobre como "termo" e "auto" são coisas distintas.

"Porra, é claro que são coisas diferentes. Tu não prestou atenção nas outras 50 vezes que eu falei isso?! Tu por um acaso tem merda embaixo dessa carapaça loira oxigenada?! Será que possuir todo o conhecimento jurídico do universo te tornou disléxica e incapaz de compreender qualquer tipo de explicação, por mais simples que ela seja?! Mas que merda!", era o que ele deveria ter respondido.

Juiz procura assessor

Semana passada tava fazendo um curso de capacitação pra exercer minha nova função. O curso foi ministrado aqui mesmo no além mar. Além de mim, havia uns outros 60 instruendos.

A maior parte da galera é oriunda de assessorias de juiz, os típicos ratos de gabinete, que adoram tornar tudo mais díficil. Inclusive, não sei se já mencionei aqui, mas dentro do grupo "baixarias em direito", os ratos de gabinete são o subgrupo mais desprezível. Imagine, os mais desprezíveis dos desprezíveis seres do universo: esses são os ratos de gabinete (ressalvada uma ou outra exceção, é claro)

Em dado momento do curso, o instrutor estava explicando como as certidões exaradas pelos oficiais de justiça devem ser simples, claras e concisas. "Ela deve conter apenas as informações mais essenciais", o cara falou.

Nisso, uma guria, que até um tempo atrás trabalhava com um juiz, indaga: "Ai, professor. Pode por jurisprudência na certidão?"

Educadamente, o instrutor respondeu que "não" e passou a repetir tudo aquilo que ele já tinha dito, sobre como a certidão deve ser elaborada sem viadagens.

Essa negada é muito burra mesmo, acha que é o máximo só por que já trabalhou com um juiz, mas fica fazendo essas perguntar escrotas. Porra, é óbvio que um oficial de justiça não pode por jurisprudência numa porcaria de certidão. Eu, que sou um merda, mas trabalho há quase 7 anos no judiciário, não consigo pensar em uma única situação na qual um meirinho precise citar jurisprudência numa de suas certidões, a não ser, é claro, que ele queira achar alguma desculpa pra não cumprir o mandado, ou, pior, que ele se ache o portador de todo conhecimento jurídico do universo e não queria cumprir a ordem judicial pois a considera "errada". Bem coisa de rato de gabinete mesmo

Monday, September 12, 2011

dependência + internet + tratamento

Hoje fui cumprir um mandado de intimação numa longínqua localidade da Ilha da Magia.

Cheguei na frente da casa e tive que bater palmas, sentido-me um completo paspalhão, uma vez que Florianopólis é uma cidade em que as residências não tem campainha.

Dai tá, me aparece a intimanda de pijama, pra variar. Isso numa segunda-feira às 11h da manhã.

Enfim, inicio meu monólogo padrão. A mulher assina a parada e eu dou uma via do mandado pra ela.

"Mas que que eu faço agora?", a mulher pergunta.

Faço uma longa explanação sobre o que ela deve fazer, a qual poderia ser resumida em uma única frase: "ligue pro seu advogado, mas antes que eu conclua meu raciocínio, a mulher me pergunta "tu é de onde?"

"Como assim 'de onde eu sou'"?, indago, aturdido.

"De que estado tu é?", ela torna a perguntar.

"Sou de Santa Catarina mesmo, de Blumenau", na realidade, como é do conhecimento dos inexistentes leitores deste blog, eu sou de Gaspar, mas quando me perguntam de onde eu sou, sempre digo que sou de Blumenau, por que ninguém conhece Gaspar, dai se eu digo que sou de Gaspar, nego faz aquela cara de cu e eu tenho que ficar explicando onde fica a porcaria da cidade de Gaspar no mapa de Santa Catarina, o que, no fim, não faz diferença nenhuma, por que o cara nem vai passar a saber onde fica Gaspar depois da minha explicação, inclusive por que, niguém dá a mínima pra Gaspar. Assim, eu facilito a vida de todos simplesmente dizendo que sou de 'Blumenau', que é uma cidade igualmente ruim, vale mencionar.

"Ah", ela diz, "é que eu sou de São Paulo, e tu não tem sotaque de catarinese, tens sotaque de paulista ou paranaense".

"Porra, sotaque de paulista/paranaense? Tá me tirando, mano? Perdeu a noção do perigo, o medo da morte? Ninguém me chama de Paulista, ou, pior ainda, de Paranaense", foram as palavras que me passaram pelo celébro naquele instante.

Contudo, externalizo apenas um consternado balançar de cabeça e os lábios contraídos. Despeço-me. Parto, em silêncio, pra próxima casa sem campainha.